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Eleições: “ser feliz ou ter razão"?

19/09/2018

O Brasil precisa desesperadamente enfrentar os fantasmas que ameaçam a soberania popular, sem medo de apelar à razão, sem medo de ser feliz!

Você prefere ser feliz ou ter razão? Essa pergunta nunca me desceu bem. Porque eu teria que escolher entre ser feliz e ter razão? Porque eu não poderia buscar agir com a razão e ser feliz ao mesmo tempo? Ainda que a desrazão e a infelicidade façam parte da vida, não me parece razoável que tenhamos que escolher uma ou outra. A bem da verdade, não vejo como eu poderia ser feliz tendo que abrir mão da razão, nem vejo como seria razoável abrir mão da felicidade. A pergunta assim descontextualizada é nonsense, mas além disso, ela é perigosa, pois esconde um pensamento prepotente e autoritário que contraria, a um só tempo, a liberdade e a verdade.

 

Quando se coloca a escolha entre ser feliz e ter razão, o que está se propondo é que cada um guarde suas ideias para si, ainda que se lhe pareçam boas, dado que o interlocutor não teria a capacidade de alcançá-las e aceitá-las, impondo resistências que fatalmente atrairiam a infelicidade.  É como se dissesse: você tem um bom argumento, mas para que insistir nisso? As pessoas não estão preparadas para ouvi-lo, deixe a razão pra lá, siga o rebanho e seja feliz. Não ouse expor um pensamento diferente, não discuta, pois as pessoas podem reagir violentamente. Ora, admito até que recolher os argumentos possa ser melhor em situações muito particulares - penso em Galileu perante a inquisição. Mas acho inconcebível que o abandono deliberado da razão possa servir como regra de conduta para uma vida feliz. E certamente não é algo compatível com a política. Negociar, convencer, formar maiorias, disputar votações, tudo isso requer abertura para falar e ouvir, criticar e ser criticado, convencer ou ser convencido, mas antes de tudo, argumentar publicamente. Escolher entre ter razão ou ser feliz não é algo da política, seria algo como se contentar sob o jugo da ignorância e render homenagens à tirania, sem enfrentá-las.

 

Nessas eleições, tenho ouvido aqui e ali pessoas que reconhecem a força dos argumentos do PT na defesa de Lula e na denúncia do golpe em curso desde 2016, assim como simpatizam com as teses do partido para tirar o país da crise atual e reduzir as desigualdades agravadas pelo governo Temer e seus aliados. Mas, apesar disso, defendem o não voto no PT, porque, dada a polarização do país entre petistas e antipetistas, e sabendo do DNA golpista da elite brasileira, acham que uma vitória petista fatalmente suscitaria um acirramento do golpe, tornando ainda mais explícito o autoritarismo e o estado de exceção, o que prejudicaria ainda mais as camadas mais populares. Situação paradoxal na qual seria antipopular a eleição do partido que mais representou uma ameaça real à distância entre a elite e a massa da população, e que por isso mesmo tornou-se maior inimigo do status quo. Note-se  ainda que a adesão à candidatura do PT é maior justamente nessas camadas que, na lógica desse argumento, seriam as mais prejudicadas.

 

Olhemos atentamente para o argumento mencionado acima. Será mesmo um paradoxo, ou estamos diante de uma falácia? O que se prega, assim, não é que nos contentemos com uma democracia tutelada pela histeria de nossa elite? Não importa que sejamos maioria e que estejamos com a razão, não deveríamos ousar afrontar os caprichos da fração abastada, pois a rebordosa recairia sobre a população mais carente. Argumento capcioso esse que, sob suposta ameaça de novos golpes da elite, transforma o voto em defesa de um programa que atende aos anseios populares em voto desfavorável ao povo, e torna de interesse popular o voto em alguém mais palatável às elites - e, portanto, menos favorável à massa de trabalhadores.

 

O que se percebe é uma escolha condicionada pelo medo das retaliações de juízes, promotores, bispos, generais, banqueiros, grandes empresários etc. Medo, aliás, que a classe popular, já resolveu enfrentar. Em outras palavras, o que se coloca é uma disjuntiva entre manter as aparências de democracia e eleger um governo que não afronta a elite golpista, ou, votar em um representante dos trabalhadores e sofrer as represálias violentas de um grupelho opulento. Para mim, isso não faz sentido.

 

Assim como não devemos escolher entre ser feliz ou ter razão, acredito que não precisamos escolher tampouco entre votar em quem mais nos representa ou preservar o que resta de nossas instituições democráticas. Em ambos os casos, precisamos das duas opções simultaneamente. Há muitas razões para votar ou para não votar na chapa Haddad/Manu, mas o argumento do não voto por receio de retaliações autoritárias da elite brasileira não é razoável. O Brasil precisa desesperadamente enfrentar os fantasmas que ameaçam a soberania popular, sem medo de apelar à razão, sem medo de ser feliz!

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