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A HISTÓRIA DO MEU CÃOZINHO E A HISTÓRIA DE UM CÃO MUITO MAIOR

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A Sentença De Moro e o Medo De Mandar Prender Lula

Lula não está preso porque é inocente. E prender inocente traumatiza. E se for ex-presidente da República com a simbologia social do governo Lula, traumatiza muito mais. Foi dessa espécie de coisa que fugiu Moro.

Na década de 80, século passado, qualquer turista que se aventurasse em São Paulo e necessitasse de um táxi ou de um jornal, saberia das peripécias patrimoniais de Lula. Na conversa com o taxista ou na leitura das linhas ou interpretação das entrelinhas dos jornais, ficávamos sabendo que Lula, o metalúrgico que havia fundado Partido para defender os trabalhadores, em verdade era um ricaço e dono de mansão estupenda no bairro do Morumbi. Os taxistas ou colunistas mais detalhistas apontavam Lula como vizinho de Silvio Santos, Antônio Ermírio de Moraes ou alguém da família Safra.

 

Pois lá pela quinta vez, cansando de ouvir falar do assunto, a curiosidade batendo panelas, me ofereci para pagar a corrida até o Morumbi, com a condição de que o taxista me apresentasse a ‘mansão do Lula’. Com sorte, comentei, a gente ainda flagrava Lula passeando pelas calçadas do bairro chique.

 

- Senhor, eu não sei bem onde é a casa.

- Não tem problema. Tenho tempo, vamos procurar.

 

Pelo caminho, paramos em vários pontos e todos os taxistas do local conheciam muito bem a história, mas o local exato da mansão não, ninguém sabia direito. O taxista que me conduzia pediu desculpas, assegurou a veracidade de tudo que falara, mas, naquele dia, não seria possível alcançar a famosa mansão de Lula.

 

 - Quem sabe em outra oportunidade – comentei.

- Sim, sim, farei uma investigação melhor por aí. Esse Lula, senhor, não me escapa.

 

Fosse mais esperto o taxista, me mostrava a casa de Antônio Ermírio e encerrava o assunto:

 

-É aquela mansão ali, senhor.

 

Veio à minha mente o taxista paulistano porque estou agora tentando contabilizar as mais recentes conquistas imobiliárias de Lula.

 

Segundo jornalistas ‘muito bem informados’ e com elementos de ‘fonte confiável’, fiquei sabendo outro dia que Lula era dono de patrimônio inestimável no Uruguai, com destaque para uma casa em Punta Del Este, construída em terreno de 7,5 mil metros quadradros. Ao contrário da casa do Murumbi, essa a revista Istoé mostrou até a foto. Uma foto comprometedora, resultado do jornalismo investigativo da revista. Não mais papo de jornaleiro, mas matéria de jornalista. Segundo a revista, um guia turístico local apresentava a casa aos brasileiros sem a menor cerimônia ou dúvida:

 

- Esta casa aí é do ex-presidente de vocês, o Lula...

 

Os leitores perceberam a diferença? A casa no Morumbi, o taxista não detinha maiores informações, mas o jornalista deu um banho em sua reportagem. Até foto...

 

Em minha pesquisa, lendo colunistas paraenses, descobri que metade do Pará era de Lula. As fazendas de Lula no Pará somadas alcançavam um território equivalente à metade do Pará. Como Pará fica distante e não é nada fácil chegar até lá para medi-lo, recorri ao Google para assegurar que metade do Pará tem uma área equivalente à quase três estados de São Paulo. Garimpando as contas eleitorais, Lula nunca ganhou eleição no Estado de São Paulo, mas estendeu seus braços imobiliários até o Pará. Vingança patrimonial contra o insucesso eleitoral. Deve ser isso.

 

Quantas fazendas tem a Friboi eu não sei, mas são todas de Lula. Descobrimos, em pesquisa radiofônica, que Lula é dono da Friboi, então, consequentemente, leva também a fama de suas fazendas. Nunca saberemos a razão pela qual Lula se utilizou de recursos de empresa de sua propriedade para financiar seus inimigos do PSDB, PMDB, DEM e outros partidos, conforme revelação de inúmeras reportagens jornalísticas. Vai entender a política...

 

Mais recentemente, Veja nos assegurou que o verdadeiro proprietário do sítio que Lula freqüentava em Atibaia era dele mesmo. Um pedalinho com o nome do neto do ex-presidente ancorada na lagoa do sítio funcionou como prova cabal da denúncia.

 

Não satisfeito com tanta propriedade, por meio da sentença do juiz Sérgio Moro, fiquei sabendo agora que Lula é dono igualmente de um apartamento triplex no Guarujá. Não é mais conversa de taxista ou jornaleiro, gente, nem papo de rádio, denúncia de jornal ou revista, agora é um juiz, enrolado em toga até o pescoço, declarando em papel timbrado da Justiça, que Lula tem um apartamento na beira do Oceano Atlântico, na rica cidade paulista do Guarujá, como benefício pessoal dos rolos entre a Petrobrás e a construtora OAS, oriundos das obras na Refinaria do Nordeste Abreu e Lima - RNEST e em obras na Refinaria Presidente Getúlio Vargas – REPAR. Em 87 milhões de reais contratados, Lula recebeu, segundo Moro, algo como 3%, divididos entre o triplex e o armazenamento de patrimônio pessoal ou presentes recebidos durante o mandato presidencial.

 

Moro deixou o armazenamento de lado, não vendo dolo ou culpa de Lula, concentrando a sentença no apartamento, o que nos permite, igualmente, manter a pauta na agenda patrimonial de Lula.

 

Tratado como herói nacional, Moro veio salvar a reputação da televisão, dos rádios, dos jornais, revistas e do meu taxista paulistano que há 30 anos acusam Lula, sem comprovação, de ser um dos homens mais ricos do país, um ex-metalúrgico e ex-presidente que usou a escada de defesa dos trabalhadores para botar dinheiro no próprio bolso.  

 

Juristas, especialistas em direito e jornalistas de variada natureza se debruçaram sobre a sentença de Moro. Alguns encontraram elementos de prova contra Lula, outros contra a sentença de Moro. São estudiosos da trama penal, o que não é o meu caso.

 

Minha crônica é minha sentença e devo cuidar dela. A César o que é de César. A Lula o que é de Lula.

 

Ao contrário dos especialistas preocupados com a tecnicalidade dos eventos analisados, resolvi dividir a sentença morista em 04 partes:

 

Na primeira, Moro se lixa para a acusação do Ministério Público. Enquanto o MP recorre à prova indiciária, em bom português, a prova desapegada de provas, mas sustentada em indícios, e à argumentação de que é desnecessário ato de ofício para consumar a corrupção, Moro foi por outro caminho. Transformou rasura de documento alterando a numeração da unidade imobiliária e sem assinatura de ninguém em prova inconteste e a indicação de diretores da Petrobrás por Lula como ato de ofício. Mesmo as mais rasas atividades cerebrais do mundo capitalista sabem que todos os presidentes do mundo participam dos debates sobre nomeações importantes de seus governos, mas os atos de ofício são, nos casos de estatais, de seus conselhos de administração. A estender esse emplasto intelectual ao processo morista, até a propina pedida pelos guardas no trânsito, que são nomeados por fulanos nomeados por presidente, é de responsabilidade deste.

 

A segunda, Moro se lixa para as testemunhas de defesa. Apesar das declarações de dezenas de testemunhas contra a tese do Ministério Público, Moro construiu sua sentença sobre uma única testemunha, o coitado do velhinho dono da empresa disposto a declarar até contra a mãe para pegar menos tempo de cadeia. O mesmo velhinho que corroborara, anteriormente, os outros testemunhos que negavam a posse do imóvel para Lula, mas que agora está de olho concentrado nas grades da cadeia, não na fortuna.

 

A terceira, Moro se lixa para as provas materiais apresentadas pela defesa, demonstrando que o triplex permanecia em poder da OAS, inclusive compondo garantias em transações financeiras. Não serviram de prova material nem a documentação cartorial nem a custódia bancária. Segundo o MP e Moro, a ‘criminalidade complexa’ jamais faria uma transação com a revelação da prova do crime à luz do dia. O fato de o patrimônio estar ainda vinculado à OAS é prova da sabedoria do crime e não serve para demonstrar mais nada.

 

A vasta documentação apresentada foi declarada suspeita e‘insubsistente’. Pela primeira vez na história deste país, um criminoso (Lula) adota como laranja não um amigo ou um parente, mas o próprio agente corruptor. É o ladrão que rouba o carro, mas pede ao proprietário que o guarde em sua garagem, enquanto ele acha o atravessador. Nesse intervalo, informa o ladrão, o proprietário do carro pode até vendê-lo ou, se quiser, oferecer em garantia de empréstimo junto ao agente financeiro. Para tal complexidade criminosa, o juiz deve ser igualmente complexo. Os pedidos da defesa para troca do julgador jamais seriam aceitos. Somente Moro é complexo o suficiente. Santa inocência.

 

A quarta, Moro se lixa para a própria reputação. Passou a maior parte da sentença se defendendo das acusações de parcialidade e de inimizade com o réu. A cada palavra de sua sentença mais demonstrava parcialidade e inimizade.

Lula, segundo Moro, recebeu vantagem indevida, lavou dinheiro (estava ainda na pré-lavagem, pelo visto), ocultou e dissimulou a propriedade do imóvel.

 

Depois de provar tudo isso, Moro estabeleceu a dosimetria da pena. Um certo maquiavelismo ou sadismo acompanhou a sentença dele:

 

Lula é condenado a 9 anos e meio de prisão e o ex-metalúrgico tem conhecidos 9 dedos e meio, somadas as duas mãos. Fixa multa no valor dos lucros que Lula obteve com as palestras em 2016, como a sugerir que elas foram fraudadas e que o ex-presidente devesse devolver esses valores à sociedade. Manda confiscar o imóvel, que não provou ser de Lula, mas que não traz maiores danos à sentença, já que o capital maior dele é simbólico. 2 milhões e meio de reais não farão falta à OAS e cria uma áurea de verdade à decisão prolatada. Por fim, proibiu Lula de ocupar qualquer cargo público durante 19 anos, sabendo que há uma chance para lá de razoável d’ele morrer até lá.

 

Não poderia faltar um grand finale. Para evitar um ‘trauma social’, Lula poderá recorrer da sentença em liberdade. Conhecido como juiz de linha dura, por que será que Moro se deu a tal benevolência se existia um clamor da parcela da sociedade que ele representa pela prisão de Lula?

 

Ora, ora, ora...Se nada é cristalino nesse processo, essa última decisão o é. Cairia o pano do teatro sem que se visse o rosto do mascarado se a ‘trauma social’ não se desvelasse.

 

Está na cara que Moro aceitou a tese da defesa de que Lula não era dono do imóvel. Se vencedora a tese da propriedade, Lula estaria preso. Não haveria trauma social, se restou inconteste que o cara roubou? Ninguém tem dó de ladrão.

 

Nada disso. Lula não está preso porque é inocente. E prender inocente traumatiza. E se for ex-presidente da República com a simbologia social do governo Lula, traumatiza muito mais. Foi dessa espécie de coisa que fugiu Moro.

 

 

 

 

 

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