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A HISTÓRIA DO MEU CÃOZINHO E A HISTÓRIA DE UM CÃO MUITO MAIOR

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Reis do Futebol: Reinaldo

O vídeo de Reinaldo devia ser presença permanente na TV de Messi.

O craque de futebol é o artista do estádio e o palhaço o artista do circo. O palhaço que se equilibra na perna de pau é ovacionado, mas o jogador perna de pau não faz o mesmo sucesso no estádio. Os torcedores chutam o pau da barraca: 

 

- Sai daí, palhaço!

 

Reinaldo, o rei, chegou ao galo mineiro logo que superou definitivamente as fraldas de sua infância em Ponte Alta, na Zona da Mata mineira, para ser estrela de futebol, não de circo, apesar das maravilhas do picadeiro que lhe contava o companheiro Toninho Cerezzo. 

 

De tanto fazer gols em campinho de terra, o Atlético lhe fez uma proposta para lá de promissora: 

 

- Que tal você marcar uns gols desses lá no Mineirão, Reinaldo? A torcida do galo ficará feliz e você ainda bota um dinheirinho no bolso da família. 

 

A majestade do menino já apareceu no primeiro treino. 

 

Há poucos dias fizera 16 anos, idade mais que suficiente para arrumar um lugar no treino, no time dos reservas. A zaga titular, Grapete e Vantuir, campeã brasileira de 1971, vendo a sabedoria com a bola de Reinaldo, tratou de levá-lo a sério: deu o corpo e ele se esborrachou no chão, travou a bola com firmeza e ele caiu, bateu-lhe nas canelas e levou vantagem na jogada. 

 

Achando que aquele negócio não estava bom para ele, Reinaldo mudou de tática. Ao invés de bater de frente saiu pelos lados, como uma criança se livra do adulto no pique-pega. Saltou do balanço para ganhar velocidade, deixando o zagueiro para trás. Deslizou no escorregador, para mudar de posição rapidamente. Deitou e se escondeu com a bola, perto da trave, empurrando a criança para o gol. Tudo no maior fingimento. 

 

Vantuir levou a pior quantas vezes? Não conseguiu contar. E Grapete? Os dribles tanto lhe desconcertaram que ele perdeu o caminho de casa, a gurizada remedando ele. 

 

Reinaldo driblava e fazia gol, para espanto de Telê Santana, o treinador que tudo observava, maravilhado. 

 

Logo, passou a fazer os gols no Mineirão, seu palco preferido. Estufou suas redes 152 vezes. Lógico que não escolhia time, mas o Cruzeiro era sua vítima preferida. Não por ele, mas pela torcida. Os gols na raposa levavam delírio ao Mineirão: 

 

- Rei, rei, rei! Reinaldo é nosso rei. 

 

Desde Reinaldo, o Cruzeiro se acostumou com essas duplas de zaga de pouco futebol e muita pancadaria. Se hoje temos Leo e Manoel fazendo a zaga cruzeirense, batendo até em caneca de chopp, à época de Reinaldo a guarda era formada por Moraes, conhecido como Moraes Paulada, e Darci Menezes.

 

Enquanto o atacante conhecia a linguagem do futebol e não tratava a bola por vossa senhoria, a famosa dupla de zaga nem precisava de bola. As más línguas dizem que ela ficava meses treinando apenas contato, uma forma elegante de dizer que domingo era dia de porrada, ora no joelho, ora no tornozelo, ora um tostão violento na coxa. De quem? Do rei Reinaldo, meus caros. 

 

Tostão passou anos no Cruzeiro tentando ensinar todo mundo a jogar sem a bola, mas a zaga entendeu? Entendeu nada, pensando que havia entendido tudo. Jogar sem a bola, para Tostão, era um momento especial de magia em campo e, para a zaga, de marcar presença nas canelas adversárias. É de doer. Coitado do Reinaldo.

 

A mania de Pelé era arrastar os zagueiros com sua destreza, força e velocidade. Messi gosta dos dribles curtos, prendendo a bola numa teia de borracha que amarra aos pés. Já Reinaldo se destacava pelos dribles nas costas do zagueiro. Ele carregava a bola para um lado e para o outro até desequilibrá-lo. Então, jogava a bola em suas costas, de um lado para o outro, deixando o adversário sem guia nem rumo, sem pai nem mãe. Reinaldo se mudava e mudava o lado da bola. Tal jogada, infinitas vezes, foi feita em jogada aérea. A partir de um totó leve por baixo, levantava a bola, que roçava no pescoço dos zagueiros, várias vezes, para lá e para cá. 

 

Seus gols mais maravilhosos combinavam os dribles nas costas para se livrar do zagueiro e a cavadinha, para se livrar do goleiro. Se não foi o inventor, ele foi o mestre da cavadinha. O vídeo de Reinaldo devia ser presença permanente na TV de Messi. 

 

Por chegar cedo ao futebol de adulto, o menino sofreu com contusões. Começou a perder os meniscos com 17 anos. Primeiro, tiraram os externos, depois os internos, depois... Tiraram tantos, que ele devia ter um lugar no corpo para produzir meniscos. Hoje, tirar menisco é moleza; à época, o menisco saía na faca. 

 

Um jovem guerreiro, em todos os sentidos. Seu gesto de comemoração, o punho fechado erguido, em adesão aos panteras negras americanos, não era bem visto pelos militares. Vestindo a camisa do Atlético, vamos lá, eles aceitavam. Mas a amarelinha da seleção brasileira, dava brilho nos coturnos.  

 

Reinaldo perdeu convocações para a seleção brasileira, várias vezes, por estar machucado, mas outras, em plena forma, não passaram despercebidas. Os militares, que convocaram o atleticano Dario para a Copa de 1970, impediram Reinaldo, seu sucessor no ataque do galo, a jogar pela seleção? O moralista Telê Santana o excluiu da Copa de 1982 porque ele era amigo de um homossexual assumido em Belo Horizonte? Ou foi contusão? Ou as coisas se juntaram? 

Reinaldo foi pra política, virou deputado estadual em Minas e vereador em Belo Horizonte. Apanhou da política e das drogas. Hoje, comenta futebol. E envia, claro, vídeos para os atacantes de hoje. Messi, por exemplo, já aprendeu quase tudo.  

José Reinaldo de Lima, ou Reinaldo, ou Rei, nasceu em Ponte Nova, Minas Gerais, em 1957. É o maior artilheiro da história do Mineirão, com 152 gols. Disputou a copa do mundo de 1978 pela Seleção Brasileira. Iniciou sua carreira no Atlético com apenas 16 anos. Sofreu com contusões e drogas. Foi deputado estadual e vereador.

 

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