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A HISTÓRIA DO MEU CÃOZINHO E A HISTÓRIA DE UM CÃO MUITO MAIOR

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Hoje Eu Não Vou Falar de Lula IV

 

A matrona Espina Laus parecia dona da feira que frequentava aos sábados, logo de manhazinha, o GPS marcando Santana, São Paulo. Das primeiras a chegar, sentava à sombra da árvore mais frondosa, num banquinho providencial, de propriedade da prefeitura. 

 

Dali observava toda a movimentação, desde a chegada das primeiras carroças com melancia e abóbora, os carrinhos de mão com rapadura e as kombis com morangos e queijos, estes de vários tipos. 

 

As bancas de carne ela reconhecia pela nuvem das moscas.  

 

Depois de muito descansar, circulava em todas as direções, conferindo os melhores produtos, comprando o que lhe aprouvesse. 

 

Queixo levantado e nariz empinado, passava pelos mendigos lhes atribuindo pequena parte das coisas que comprara. Deixava um tomate com um, uma cebola com outro, dois quiabos para duas mãos e, em sofisticada ironia, cedia milho para dona Rilda Silva, uma crioula sem dentes, as gengivas altas, percebidas quando não continha o sorriso de felicidade. 

 

Rilda Silva passou muito tempo da vida transitando entre a humilhação e o sofrimento. O apelido de ‘banguela’, desvindo dos dentes, e as mãos estendidas na feira representavam bem a humilhação. Não ter comida para a rapaziada, de três a nove anos, é o que lhe trazia sofrimento. 

 

Ganhando um cartão do governo, passou a entrar na feira e escolher, ela mesma, os frutos que levava para casa. Arriscava nos grãos, mas também proteína, como ovos e carnes. Da primeira vez, levou uma banha de porco que, misturada ao feijão de corda e à farinha, deu um troço maravilhoso. 

 

A garotada não estudou nem brincou, apenas comeu, a tarde toda. 

 

Estranhou a dentadura do governo, mas aceitou, porque era de graça. 

 

Tropeçou duas ou três vezes com a matrona Laus na feira, mas, depois, nunca mais. Laus achava confortável sua posição social na feira, mas a presença de alhos e bugalhos fazendo compras estabeleceu uma mudança inaceitável.  

 

Se soubesse para onde o despeito a levou, Rilda iria até lá, para agradecer por tudo. Se fosse perto, iria a pé; longe, de ônibus. 

 

De ônibus, meu. Como a vida mudou.

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