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Hoje Eu Não Vou Falar de Lula III


Samantha Paulsen consumia luz sem desconfiar. Gostava do quarto claro e a primeira tarefa a que se incumbia, ao acordar, era apertar o botãozinho mágico de plástico branco que se fixara na parede para oferecer-lhe claridade.

Dormir no escuro era uma exigência familiar e não brigar com isso à noite, aprendera, é sinônimo de paz por todo o dia seguinte. Ninguém da família reclamava de suas estripulias, se fizesse o enorme sacrifício de dormir com a luz apagada.

Para o dia, fechava a cortina do quarto para se aproveitar do botão. Acendia e apagava quantas vezes quisesse, claro e escuro, claro e escuro, claro e escuro.

Em descoberta recente, alinhou o interruptor da luz com a tomada e achou tudo mais brilhante. O picolé, geladinho, e o iogurte de todas as manhãs, retirados da geladeira, dependiam da mesma fonte de energia, num esquema que envolvia geração, transmissão e consumo, um sistema difícil de explicar e que, talvez, quando adulta, devesse entender.

Penélope Silva conhecia candeeiro, que funcionava com querosene, e vela, que funcionava com tição, roubado do fogão de lenha. Noves fora, a luz vinha do sol e nada mais.

A família era claramente despossuidora e Penélope desconhecia geladeira e televisão. Soubesse ela que a geladeira significaria o fim da comida quentinha da vovó e a televisão aguentar certos programas e, talvez, não sentisse tanta necessidade da luz.

Mais crescida, veio a necessidade de conservar alimentos e alguns medicamentos e, de ouvir falar, descobriu que a solução eram a luz e a geladeira. Aprendeu a gostar de música sertaneja e a solução eram a luz, a vitrola e a televisão.

Aqueles baitas postes deitados no chão se dirigiam à sua casa e, com eles, vinha a luz, alguém cuidou logo de explicar.

Quando houvesse dinheiro no lar, comprariam uma vitrola e uma geladeira, quem sabe, uma televisão e um progresso familiar.

Foi a primeira vez que Penélope ouviu falar em programa de governo e em presidente da República.

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